Desde o princípio, o que venho contando nas experiências nos ônibus ou nos acontecimentos relacionados a ele, nunca se tratou apenas de mim, apesar de serem, como já disse antes, uma visão totalmente íntima, mas acho que os fatos de hoje vão fugir um pouco a regra, porém sendo ainda mais íntimo que de costume.
Acordei naqueles dias em que nem o reflexo do espelho deseja sorte. As pernas estavam doloridas, os seios inchados e junto com eles todo abdômen, que passou a me parecer estranhamente arredondado. Excesso de progesterona, eu acho. E como não havia possibilidade alguma de eu estar grávida, iniciais saltavam dos meus olhos: TPM.
Para que isso não comece a parecer diário adolescente, vou evitar os detalhes do meu atraso por não ter conseguido sair antes da cama, do cachorro que sujou minhas calças na saída, do sol que já era escaldante às oito, da demora do ônibus, do engarrafamento, mas aí um telefonema. Ele significava que eu deveria descer do ônibus no ponto seguinte e esperar a eternidade de quinze minutos por uma carona que me levaria ao meu destino naquela manhã.
E lá estava eu, outra vez ao sol, encostada num canto, vendo gente entrar e sair dos ônibus que paravam ali. Mas tudo parecia estar em absoluta ordem a não ser pela minha impaciência e impiedosa maneira de maldizer o que não me agradava. Se couber neologismo aqui, eu poderia dizer o meu “malpensar”, já que toda minha fúria, inquietação, insatisfação e até dores estavam bem quietinhas dentro de mim e não disputavam com o barulho das buzinas.
De repente um estrondo e as atenções se voltam para um ônibus interrompendo o tráfego e uma mulher parada ao lado dele. Ela havia jogado uma pedra enorme numa das janelas.
O motorista saiu, ela começou a bradar no meio da rua, o cobrador veio depois para tentar acalmar. Os passageiros falavam, riam, reclamavam. Os carros buzinavam. Os motoqueiros paravam. A mulher gritava. O sinal abria, fechava e voltava a abrir. Tudo tinha um furioso vigor de hormônios em ebulição e o ônibus continuava parado.
Depois de um tempo ele se foi, a mulher ficou. Mais alguns palavrões e outras duas pedras menores noutros ônibus que passaram. Eu nunca vou saber o que houve de fato, o que causou aquele instante de caos, mas talvez entenda o que ela estava sentindo. Se eu fosse um tanto mais louca, teria sido eu a atirar as pedras. E olha que ela nem parecia tão louca assim.
Eu deveria ter jogado ao menos umas bolinhas de papel, mas não tive mais tempo. Minha carona chegou.
Acordei naqueles dias em que nem o reflexo do espelho deseja sorte. As pernas estavam doloridas, os seios inchados e junto com eles todo abdômen, que passou a me parecer estranhamente arredondado. Excesso de progesterona, eu acho. E como não havia possibilidade alguma de eu estar grávida, iniciais saltavam dos meus olhos: TPM.
Para que isso não comece a parecer diário adolescente, vou evitar os detalhes do meu atraso por não ter conseguido sair antes da cama, do cachorro que sujou minhas calças na saída, do sol que já era escaldante às oito, da demora do ônibus, do engarrafamento, mas aí um telefonema. Ele significava que eu deveria descer do ônibus no ponto seguinte e esperar a eternidade de quinze minutos por uma carona que me levaria ao meu destino naquela manhã.
E lá estava eu, outra vez ao sol, encostada num canto, vendo gente entrar e sair dos ônibus que paravam ali. Mas tudo parecia estar em absoluta ordem a não ser pela minha impaciência e impiedosa maneira de maldizer o que não me agradava. Se couber neologismo aqui, eu poderia dizer o meu “malpensar”, já que toda minha fúria, inquietação, insatisfação e até dores estavam bem quietinhas dentro de mim e não disputavam com o barulho das buzinas.
De repente um estrondo e as atenções se voltam para um ônibus interrompendo o tráfego e uma mulher parada ao lado dele. Ela havia jogado uma pedra enorme numa das janelas.
O motorista saiu, ela começou a bradar no meio da rua, o cobrador veio depois para tentar acalmar. Os passageiros falavam, riam, reclamavam. Os carros buzinavam. Os motoqueiros paravam. A mulher gritava. O sinal abria, fechava e voltava a abrir. Tudo tinha um furioso vigor de hormônios em ebulição e o ônibus continuava parado.
Depois de um tempo ele se foi, a mulher ficou. Mais alguns palavrões e outras duas pedras menores noutros ônibus que passaram. Eu nunca vou saber o que houve de fato, o que causou aquele instante de caos, mas talvez entenda o que ela estava sentindo. Se eu fosse um tanto mais louca, teria sido eu a atirar as pedras. E olha que ela nem parecia tão louca assim.
Eu deveria ter jogado ao menos umas bolinhas de papel, mas não tive mais tempo. Minha carona chegou.
Introdução prolongada, e eu desconsidero o fato de ser "uma visão totalmente íntima". Mas gostei da descrição inicial e da narrativa final.
ResponderExcluirSuas crônicas são perfeitas...um grande abraço..bjos
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