segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Humor na dor

"Se a vida te der limões, faça com eles uma limonada".
Quem sabe quem disse isso? Mas de que importa? Vamos tomar suco mesmo. E se vier docinho e gelado, será ainda melhor.
Aqui, uma limonada do brilhante humorista Fábio Silvestre que incorpora um motorista com atitudes e intenções mais comuns entre eles do que se pode imaginar.
Então a gente vai de buzú, sofrendo, mas se divertindo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Duas mulheres

Desde o princípio, o que venho contando nas experiências nos ônibus ou nos acontecimentos relacionados a ele, nunca se tratou apenas de mim, apesar de serem, como já disse antes, uma visão totalmente íntima, mas acho que os fatos de hoje vão fugir um pouco a regra, porém sendo ainda mais íntimo que de costume.
Acordei naqueles dias em que nem o reflexo do espelho deseja sorte. As pernas estavam doloridas, os seios inchados e junto com eles todo abdômen, que passou a me parecer estranhamente arredondado. Excesso de progesterona, eu acho. E como não havia possibilidade alguma de eu estar grávida, iniciais saltavam dos meus olhos: TPM.
Para que isso não comece a parecer diário adolescente, vou evitar os detalhes do meu atraso por não ter conseguido sair antes da cama, do cachorro que sujou minhas calças na saída, do sol que já era escaldante às oito, da demora do ônibus, do engarrafamento, mas aí um telefonema. Ele significava que eu deveria descer do ônibus no ponto seguinte e esperar a eternidade de quinze minutos por uma carona que me levaria ao meu destino naquela manhã.
E lá estava eu, outra vez ao sol, encostada num canto, vendo gente entrar e sair dos ônibus que paravam ali. Mas tudo parecia estar em absoluta ordem a não ser pela minha impaciência e impiedosa maneira de maldizer o que não me agradava. Se couber neologismo aqui, eu poderia dizer o meu “malpensar”, já que toda minha fúria, inquietação, insatisfação e até dores estavam bem quietinhas dentro de mim e não disputavam com o barulho das buzinas.
De repente um estrondo e as atenções se voltam para um ônibus interrompendo o tráfego e uma mulher parada ao lado dele. Ela havia jogado uma pedra enorme numa das janelas.
O motorista saiu, ela começou a bradar no meio da rua, o cobrador veio depois para tentar acalmar. Os passageiros falavam, riam, reclamavam. Os carros buzinavam. Os motoqueiros paravam. A mulher gritava. O sinal abria, fechava e voltava a abrir. Tudo tinha um furioso vigor de hormônios em ebulição e o ônibus continuava parado.
Depois de um tempo ele se foi, a mulher ficou. Mais alguns palavrões e outras duas pedras menores noutros ônibus que passaram. Eu nunca vou saber o que houve de fato, o que causou aquele instante de caos, mas talvez entenda o que ela estava sentindo. Se eu fosse um tanto mais louca, teria sido eu a atirar as pedras. E olha que ela nem parecia tão louca assim.
Eu deveria ter jogado ao menos umas bolinhas de papel, mas não tive mais tempo. Minha carona chegou.

sábado, 30 de outubro de 2010

Preto no Branco

“Meu nome é Taís Araújo, sou negra e a cor da minha pele é preta”. Esse foi o texto minuciosamente ensaiado pela atriz e apresentado num comercial de TV para o senso 2010. Mas porque não colocaram a Lília Cabral ou a Mariana Ximenes para incentivar o povo a afirmar sua identidade? Parece que o branco não precisa de alguém que lhe mostre o caminho do espelho e alguns até se empalidecem ainda mais para entrar nas estatísticas.
Qual é, gente? Vamos acordar! O projeto de nação branca e europeizada faliu há muito tempo. O Brasil é preto, branco, vermelho, amarelo, mestiço e sem precisar maquiar.
Particularmente não exerço nenhuma espécie de preconceito e nem concordo com uma série desses conceitos, mas geralmente não me manifesto, não defendo causa alguma, prefiro me manter, ao menos aparentemente, em cima do muro para não ser mal interpretada, o que acontece na maioria das vezes.
O fato é que ainda se tem muito receio para tratar do assunto e digo isso me incluindo no grupo, mas no sábado passado um (quase) diálogo que tive com uma passageira no ônibus, de certa forma, me tirou do meu lugar de conforto.
Havia ocorrido uma confusão num determinado trecho da viagem por conta da estupidez, grosseria e falta de tato com que o motorista tratou um passageiro que entrou pela porta da frente sem pagar os suados dois reais e trinta centavos da passagem. Diante da situação, a tal passageira, sentada ao meu lado, começou a comentar detalhes do ocorrido e eu visivelmente pouco interessada, apenas ia concordando com a cabeça e distribuindo risinhos de canto de boca.
Ela falava da falta de educação do motorista quando arrancou um exemplo de dentro de casa e me disse: “Olha, eu tenho uma filha, sabe? Ela é educada que só você vendo. Agora ela é negra, MAS TEM O CABELO BOM”. Aquilo me causou uma inquietação que enquanto ela continuava seu discurso eu só conseguia pensar na menina que, coitada, de acordo com a colocação da mãe a cor da pele diminuía os méritos da sua educação e que, ainda segundo a mãe, só se salvava pelo cabelo.
Parece que no futuro, muitas “Taís Araujo” vão precisar aparecer na TV para ensinar essa menina a dizer “eu sou negra e a cor da minha pele é preta”, já que o seu próprio berço ainda está impregnado de tanto preconceito.
Eu poderia argumentar a respeito, mas aos que se interessam, se incomodam, discordam ou que simplesmente ficaram curiosos a respeito da minha opinião, recomendo o clipe “Dona Cila” da Maria Gadú.
Vale mais que qualquer palavra.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mp3


Mp3. Apenas isso. Tentei entender o que significa ou como funciona, mas para quem resolveu se envolver com Letras, aquilo é técnico e tecnológico demais. Prefiro me apegar ao que sei: são arquivos de música e não me importa quanto de qualidade se perdeu, eu ouço bem e já não gasto tanto dinheiro na compra de cd’s. Mas eu não sou a única, na verdade me sinto quase como umas das últimas que aderiu à pratica de baixar músicas pela internet, com a maior cara de pau. Penso que, assim como a invenção da imprensa democratizou a escrita, a popularização dos arquivos em mp3 deixou a música ao alcance de todos, além de detonar com as lojas de disco.
Agora é assim: todo mundo conhece mp3 e mesmo sem saber o que é, tem, no próprio celular, mp3, mp4, mp5, mp200. E outro dia ocorreu um fato que me fez pensar e questionar muito a respeito de nós, os sujeitos que partilham das novas criações tecnológicas, que ouvem música, essa aí do tal mp3.
Parece que, desde sempre, dentro do conforto dos carros, em meio a engarrafamentos terríveis, é normal ouvir música e alguns até gostam de música alta o que não vem ao caso, porque desde que estejam com seus vidros fechados, não incomoda ninguém. Porém o acesso fácil e móvel a tecnologias que permitem que todos usufruam de práticas como essa, anda bagunçando ainda mais o cotidiano da gente.
Era aproximadamente dezenove e trinta, o percurso era Vasco da Gama - Estação Pirajá. Nem o horário nem o destino parecia prenuncio de uma viagem tranquila, mas tudo parecia bem e o ônibus até que estava vazio. Passada a agitação entre pagar a passagem e arrumar um lugar para sentar, percebi certo excesso de som (bondade minha), era poluição sonora de verdade. Pensei comigo: na boa, quem foi que disse que é todo mundo que pode ter mp3? E era uma confusão geral: no fundo um carinha ouvia Rap e batucava no banco, meio coisa de baiano mesmo, misturar Rap com batuque de timbau; de lá da frente, e penso que era o motorista o dono do repertório, vinha o som de reggae, de qualidade, eu diria, mas a intenção aqui nunca foi questionar os gostos musicais de ninguém, pelo menos eu não havia feito isso ainda até esse momento. Afinal, o que de qualidade tão inferior havia na música gospel que a moça da janela à minha direita ouvia?
Já passava da quarta ou quinta música dos três repertórios quando o ônibus travou no meio de um engarrafamento. Acho que isso fez o cara, sentado atrás de mim, lembrar que no celular dele também tinha aquela paradinha de música, uns arquivos em mp3. Era um moço grande, forte, nem bonito nem feio, mas daquele tipo que acharíamos esquisito se andasse na rua puxando um poodle e eis que dos autofalantes móveis nas mãos dele surge um pagode: era uma coisinha assim romântica que um grupo desses ai gravou com participação especial de alguma das mulheres fruta. Ai já estava ficando impossível não ser intimamente arrogante. Eu olhava ao redor e me perguntava se aquilo só estava incomodando a mim, parecia impossível, mas a resposta veio rápido, chegou o refrão da tal música e a metade do ônibus cantou junto.
Sem acreditar no que estava acontecendo, passei simplesmente a achar graça. Eu era mesmo minoria e o refrãozinho seguia acompanhado das vozes cansadas no buzu, enquanto o Rap continuava sendo batucado no fundo e o motorista comandava o reggae na frente. Em meio a tudo aquilo, só restou me apegar a música gospel do lado, que nesse exato momento vinha pedindo para que o Senhor transformasse todas as coisas.
Desse dia em diante passei a levar comigo meus fones para ouvir minha própria seleção musical. Sinceramente não gosto muito, a gente acaba se isolando numa particularidade onde nem vozes se aproximam. Agora a gente entra em outra discussão sobre as relações contemporâneas. São tantos meios, tantas tecnologias, tantos artifícios e tudo tão acessível e prático que nos deixa assim meio loucos, ansiosos, angustiados: enquanto uns se atacam outros são obrigados a se isolar.
Postado anteriormente em: http://turbilhaodemim.blogspot.com/